Indiana Dias e a Pedra da Mina

_MG_8533Gigantesca, monumental e muito dura. Mais do que dura, a subida à Pedra da Mina pelo Paiolinho é doída. Nesse final de semana resolvi fechar a temporada de montanhismo subindo o ponto alto da Serra da Mantiqueira. Não deu para chegar ao cume, pois as condições do tempo era muito ruins, mas restou uma experiência incrível, lições de vida. Se durante a subida eu me perguntava a todo o momento o motivo de fazer aquilo, na metade da descida eu já tinha resolvido voltar em 2017.

_MG_8458Logo no começo da trilha, antes de iniciar a caminhada, encontramos dois sujeitos que seriam protagonistas de uma história de vida ou morte. André e Wágner são dois amigos que haviam sido vencidos pela subida do Paiolinho no meio do ano e voltaram para tentar novamente. Enquanto fazíamos os últimos ajustes em nossas mochilas, eles começaram a caminhada. Caminhamos sozinhos por bastante tempo e até encontramos um sapo antes da Parada da Panela Vermelha. Não enxerguei o sapo até quase acertá-lo com meu bastão de caminhada e como ele ficou impassível paramos para algumas fotos. Nenhuma boa, todas desfocadas, mas valeu a lembrança.

_MG_8468Os primeiros momentos da trilha foram até tranquilos, passamos pelos riachos, um belo rio, mas o ritmo começava a apertar. Mal tive tempo para bater fotos tal era a dificuldade para acompanhar Carlos Moura, Gustavo e Neto, meus companheiros de expedição (Carlos Moura é nosso guia da Mantiex). Vale uma lição para 2017, levar câmera compacta para expedições com mochila cargueira e estar melhor fisicamente.

_MG_8473No último ponto d’água reencontramos André e Vágner, esse já com 58 anos, e batemos um papo. A dupla passou a nos acompanhar durante o resto da subida e foram meus companheiros próximos, pois não tinha condições de acompanhar de perto os outros três. Vale lembrar que esse último ponto d’água é antes da parte mais dura da subida. Com quatro quilos extras nas costas, lá vamos nós continuar uma subida que fica ainda mais íngreme. Alguma caminhada, bastante escalaminhada, rochas, capim alto, um pouco de calor. Já não era muito fácil, mas essa é a parte doída.

_MG_8486Chegamos a um ponto elevado onde imaginei finalmente avistar a Pedra da Mina, mas estava na verdade de frente para o Enganador. O nome é esclarecedor, porque o bicho não é baixo e até faz pensar que o objetivo está logo ali. Pois o Enganador faz isso duas vezes, uma vez que vencida essa elevação uma outra ainda mais difícil (mais escalaminhada) aparece. Gente, a subida não para nunca e tudo para atingir o acampamento base.

_MG_8529Como é a versão popular da Lei da Gravidade? Tudo que sobe tem que descer? Uma vez conquistado o Enganador é preciso descer e passar por capim alto para chegar ao acampamento base. A visão é belíssima. Muita rocha, como o Itaguaré e o Itatiaia, capim alto, como no Capim Amarelo e muita água. É sério, há muita água lá em cima. Nenhuma está perto e provavelmente é mais seguro subir pesado do que ir buscá-la. Que coisa linda é aquele monte de cachoeiras que pode-se enxergar ao longe. Que beleza é o vale do Ruah.

_MG_8531O balé das nuvens subindo e descendo as montanhas nos remete aos nossos tempos de criança. Quem nunca se perguntou até onde as nuvens chegam? Como é atingir uma nuvem? Venha para a Pedra da Mina descobrir. Bom… Tecnicamente ainda não estávamos lá. Atingir o cume significava no mínimo mais meia-hora de escalada e resolvemos fazer isso na próxima madrugada, apenas para ver o nascer do Sol, e focar na montagem de acampamento e preparação do jantar (uma sopa bem grossa). André e Vagner resolveram subir para o cume. Uma pena que esquecemos de entregar-lhes o livro (Guto pediu para Carlos levar), pois não teriam como deixar seu relato. Carlos explicou como é a subida e lá foram eles.

_MG_8524Pouco depois da subida da dupla dinâmica as nuvens começaram a adensar no cume. Pareceu que a subida não era uma boa ideia, mas continuamos a preparação do jantar. O tempo passou, o frio apertou e os caras não voltavam. Vagner estava apenas com uma camiseta e um poncho para chuva. Esfriava e eles não voltavam. Começamos a ficar apreensivos e pensar se não deveríamos subir ou acionar o resgate. Neto pareceu ouvir um chamado, mas como o silêncio reinava ignoramos o que disse. Alguns minutos se passaram e todos ouvimos um grito. Vinha do lado da montanha voltado para o Vale do Ruah. Estavam perdidos. Gustavo vai até a base, onde fica a trilha de ataque, e começa a gritar. Com os berros de Gustavo a dupla consegue se orientar e descobrir um caminho de volta. Foram salvos de uma morte por hipotermia, pois poucos minutos após sua descida a chuva começou e continuou até o dia seguinte. Não há abrigo no cume.

_MG_8535Ao amanhecer decidimos que não haveria cume porque o risco era alto (chuva e frio) e o visual estava comprometido. André comentou algo bacana. Perguntou quem era “Piter” e eu logo respondi. Ele completou dizendo que era o único nome que lembrou e ficou gritando por mim. Agradeceu pelos berros e eu disse que quem o ajudou na base foi Gustavo. Gustavo, por sua vez, nunca entendeu o que eles estavam gritando, mas desconfiou que respondendo ambos encontrariam a direção correta. Todos vivos, iniciamos a descida juntos.

_MG_8495Claro que a descida é mais fácil e rápida do que a subida, mas são umas cinco horas, gente. Além de não parar de descer, de repente sobe. Oxi!! Eu vi uma cobra. Carlos passou por ela, que de medo começou a se desenrolar. Avisei o povo e uma vez escondida no mato dei uma salto para passar pelo lugar. Procurando pela internet a bichinha parecia uma jararaca, mas a verdade é que não faço idéia da espécie. As cachoeiras ao longe estavam brancas como nuvem, era muita água descendo. Escorregamos bastante e eu estava bem apreensivo com a passagem pelo rio, pois estaria mais alto. Estava, mas ainda possível atravessar pelas pedras. Segui as instruções, mas o medo de dar um salto de uma pedra a outra fez as pernas bambearem. Gustavo pego no meu bastão e disse para eu entregá-lo para facilitar o salto. Eu retruquei dizendo que queria acabar logo com aquilo. Pedi para aproveitar a mãe estendida para equilibrar meu pulo, que foi feito com segurança. Gustavo conheci na viagem, me deu carona desde São Paulo e fiquei muito feliz pela segurança que me passou nesse momento.

_MG_8511O resto da trilha foi caminhada, alguns escorregões e muito bate papo. Tiramos uma foto de vencedores e iniciamos a caminho de volta. A aventura não havia acabado porque a estradinha de terra estava muito molhada e escorregadia. A primeira descida mais inclinada fez o jeep de Carlos bater em um barranco. Decidimos fazer parte do trecho caminhando enquanto Carlos guiava o jeep para posições mais seguras. Ficamos mais sujos nessas caminhada (a lama grudada nos fazia centímetros mais altos) do que em toda a trilha. Encontramos André e Vagner presos em sua subida onde o seu carro patinava. Combinamos de levá-los até um lugar seguro onde poderiam pedir ajuda, um guincho. Paramos em um bar onde um simpático grupo local jogava sinuca e um rapaz ofereceu correntes de pneu. Nos separamos nesse ponto, almoçamos e seguimos para Cachoeira Paulista.

_MG_8501Adorei a viagem e espero rever as pessoas que encontrei. Também quero voltar ainda melhor preparado no próximo ano, para aguentar um ritmo melhor e poder curtir as paisagem e as tirar mais fotos. Ao menos os bastões salvaram o joelho. E voltar sempre valorizando o guia (principalmente local) que nos oferece segurança com seu conhecimento topográfico e das condições do tempo. 2016 ainda não acabou, mas já posso dizer que foi um ano marcante.


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